BRITA 0,1.2 E 3 VOCÊ SABE QUAL DIFERENÇA
Escrito por Rayane Oliveira Fernandes, bacharel em Ciência e Tecnologia e graduanda em Engenharia Civil pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM).
A brita constitui um dos principais agregados minerais empregados na construção civil e em obras de infraestrutura, sendo obtida, predominantemente, por meio da britagem e do beneficiamento de materiais rochosos. Suas características granulométricas, físicas, mineralógicas e mecânicas exercem influência significativa sobre o desempenho dos materiais nos quais é incorporada, condicionando sua adequação às diferentes aplicações construtivas. Nesse sentido, a caracterização tecnológica dos agregados assume papel fundamental, uma vez que permite compreender suas propriedades, estabelecer parâmetros de controle de qualidade e avaliar seu comportamento quando submetidos às solicitações específicas de serviço.
No caso da brita 0, também denominada comercialmente pedrisco, sua caracterização pode envolver diferentes ensaios laboratoriais, entre os quais se destacam a análise granulométrica, a determinação do índice de forma, a abrasão Los Angeles, a massa específica e a absorção de água. A avaliação conjunta desses parâmetros possibilita uma compreensão mais abrangente das características do agregado, permitindo verificar sua adequação às exigências estabelecidas para determinada aplicação. A granulometria, em particular, constitui uma das propriedades fundamentais para a caracterização dos agregados, pois está diretamente relacionada à distribuição dimensional das partículas e influencia o empacotamento dos grãos, a quantidade de vazios, a trabalhabilidade, a demanda de pasta e, consequentemente, o comportamento mecânico dos materiais produzidos.
Nesse contexto, a distinção entre brita 0, brita 1, brita 2 e brita 3 está associada, fundamentalmente, às diferentes dimensões e faixas granulométricas das partículas que constituem cada agregado. Entretanto, a denominação comercial, isoladamente, não é suficiente para caracterizar tecnicamente um agregado, uma vez que as dimensões efetivamente encontradas podem apresentar variações em função da origem do material, do processo de britagem, das condições de peneiramento e das especificações adotadas pelo fornecedor. Dessa maneira, a caracterização deve ser fundamentada na distribuição
granulométrica efetivamente determinada em laboratório, mediante procedimentos normativos aplicáveis, permitindo a obtenção da curva granulométrica e a identificação da proporção relativa das diferentes frações presentes no material. Conforme apresentado na Figura 1, as diferentes classes de brita apresentam variações perceptíveis quanto ao tamanho das partículas, característica diretamente relacionada à sua classificação granulométrica.
Figura 1 – Comparação visual entre diferentes classes granulométricas de brita.

Fonte: Andrade (2017).
A brita 0 apresenta partículas de menor dimensão em comparação com as demais classes comerciais de brita, característica que favorece sua utilização em situações nas quais se requer maior capacidade de acomodação e preenchimento dos vazios existentes em uma composição granular. Sua aplicação é recorrente na produção de concretos, peças pré-moldadas, artefatos de concreto e determinadas soluções de pavimentação. Em sistemas compostos por diferentes frações de agregados, sua presença pode contribuir para o preenchimento dos vazios entre partículas de maior dimensão, favorecendo um empacotamento mais eficiente. Entretanto, a utilização de frações de menor dimensão não implica necessariamente redução do consumo de pasta de cimento, uma vez que o aumento da superfície específica dos agregados pode elevar a demanda de água e pasta, dependendo da distribuição granulométrica, da forma das partículas e da quantidade de material fino presente.
A caracterização granulométrica da brita 0 permite, portanto, verificar sua distribuição de partículas e compreender sua contribuição para a estrutura granular. Uma graduação relativamente aberta, caracterizada pela menor presença de partículas capazes de preencher os vazios entre os grãos de maior dimensão, pode resultar em maior volume de vazios na estrutura granular. Por outro lado, uma distribuição mais contínua e adequadamente proporcionada entre diferentes frações pode favorecer o empacotamento das partículas e reduzir os vazios intergranulares. Dessa forma, a análise granulométrica não deve ser compreendida apenas como um procedimento destinado à classificação comercial do agregado, mas como uma ferramenta fundamental para a avaliação de seu comportamento e para o desenvolvimento de composições granulares tecnicamente mais eficientes. A determinação da distribuição granulométrica dos agregados constitui uma etapa fundamental da caracterização tecnológica, sendo realizada, entre outros procedimentos, por meio do ensaio de peneiramento. A determinação da distribuição granulométrica dos agregados é realizada por meio do peneiramento, conforme ilustrado na Figura 2, permitindo identificar a quantidade de material retida e passante em diferentes aberturas de peneiras.
Figura 2 – Ilustração de Ensaio de análise granulométrica de agregado por peneiramento.

Fonte: Peniche e Pinheiro (2023).
A brita 1, por sua vez, apresenta dimensões intermediárias e constitui uma das classes de agregado graúdo mais utilizadas na produção de concretos convencionais. Sua aplicação é frequente em elementos estruturais, tais como vigas, pilares, lajes e fundações, desde que suas características atendam aos requisitos estabelecidos para o concreto e para as condições específicas de execução. A utilização dessa fração granulométrica pode proporcionar um equilíbrio entre trabalhabilidade, empacotamento das partículas e consumo de pasta, embora seu desempenho não dependa exclusivamente do tamanho máximo do agregado. Propriedades como forma e textura superficial dos grãos, resistência mecânica, massa específica, absorção de água e distribuição granulométrica também devem ser consideradas na avaliação de sua adequação.
Em concretos estruturais, a seleção adequada da composição granulométrica pode contribuir para a redução dos vazios existentes entre as partículas, favorecendo uma matriz cimentícia mais compacta e potencialmente reduzindo a demanda de pasta para determinada condição de trabalhabilidade. Entretanto, a simples utilização de uma fração granulométrica específica não garante, por si só, melhor desempenho. O comportamento do material resulta da interação entre granulometria, características dos agregados, relação água/cimento, teor de pasta, método de mistura, condições de lançamento, adensamento e cura. Assim, a escolha do agregado deve ser realizada de maneira integrada às demais variáveis que governam o desempenho do material.
A brita 2 apresenta partículas de maiores dimensões que a brita 1 e pode ser empregada em aplicações que comportem agregados graúdos de maior dimensão, incluindo determinados concretos de maior espessura, fundações, obras de infraestrutura e serviços relacionados à pavimentação. Sua utilização, entretanto, deve considerar as dimensões dos elementos construtivos e as condições de execução, uma vez que agregados de maior dimensão podem apresentar limitações relacionadas ao espaçamento entre armaduras, à geometria das peças, ao lançamento e ao adensamento do concreto. A compatibilidade entre o tamanho máximo do agregado e as características geométricas do elemento é, portanto, um dos aspectos fundamentais para a adequada seleção do material.
A brita 3, caracterizada comercialmente por partículas ainda maiores, encontra maior aplicação em determinadas obras de infraestrutura, sistemas de drenagem, lastros, enrocamentos, bases e sub-bases e outras situações nas quais a utilização de agregados de maior dimensão seja compatível com as exigências funcionais do sistema. Em aplicações dessa natureza, a dimensão das partículas pode exercer influência sobre a capacidade de acomodação, a permeabilidade, o comportamento mecânico e a estabilidade da estrutura granular. Consequentemente, sua utilização deve estar vinculada às características específicas do projeto, aos requisitos de desempenho e às condições de carregamento e exposição às quais o material estará submetido.
A diferença entre essas classes de agregados, portanto, não deve ser interpretada exclusivamente sob uma perspectiva dimensional ou comercial. A granulometria exerce influência direta sobre o arranjo das partículas e, consequentemente, sobre propriedades como volume de vazios, massa específica aparente, compactabilidade, permeabilidade e resistência. Em materiais granulares destinados à pavimentação, por exemplo, a distribuição granulométrica constitui uma variável particularmente relevante, uma vez que interfere na capacidade de suporte, na deformabilidade e na resposta do material diante de carregamentos repetidos.
Malysz (2004), investigou diferentes composições granulométricas de britas submetidas a ensaios estáticos e a carregamentos repetidos, avaliando parâmetros como resistência ao cisalhamento, módulo de Young, módulo de resiliência e deformações permanentes. Os resultados evidenciaram a influência da composição granulométrica e do grau de compactação sobre o comportamento mecânico dos materiais granulares, demonstrando que alterações na distribuição dos tamanhos das partículas podem modificar significativamente a resposta do agregado quando submetido a solicitações mecânicas. Esse resultado reforça que a granulometria deve ser compreendida como uma variável de projeto, e não apenas como um parâmetro de classificação do agregado.
Em estruturas de pavimentação, essa relação assume importância ainda maior, uma vez que as camadas granulares são submetidas a solicitações repetitivas provenientes do tráfego e devem apresentar resistência e rigidez compatíveis com a função estrutural desempenhada. Materiais com diferentes tamanhos máximos de agregado podem apresentar respostas distintas quanto à resistência, deformabilidade, módulo de resiliência e desenvolvimento de deformações permanentes. Dessa forma, a seleção da faixa granulométrica deve ser realizada conjuntamente com a avaliação das condições de compactação, do nível de solicitação e das características das demais camadas que constituem o pavimento. A influência da granulometria torna-se particularmente relevante em obras de pavimentação, nas quais os agregados participam da formação das camadas granulares, conforme exemplificado na Figura 3.
Figura 3 – Aplicação de agregado graúdo em camada de pavimentação.

Fonte: Malysz (2004).
Além da granulometria, a caracterização tecnológica dos agregados deve contemplar propriedades relacionadas à resistência e à durabilidade. A abrasão Los Angeles, por exemplo, permite avaliar a resistência do agregado ao desgaste e à fragmentação decorrentes de ações mecânicas, sendo particularmente relevante em aplicações sujeitas a esforços de impacto e atrito. O índice de forma, por sua vez, fornece informações sobre a geometria das partículas e sua influência potencial no comportamento do material granular. Massa específica e absorção de água também constituem parâmetros importantes, especialmente na dosagem de concretos, uma vez que interferem no cálculo das proporções dos materiais e no controle da água efetivamente disponível na mistura.
Peniche e Pinheiro (2023), ao caracterizarem uma brita 0 destinada à utilização em concreto asfáltico, obtiveram valor de abrasão Los Angeles de 34,11% e índice de forma médio de 2,165, considerando o agregado adequado para a aplicação estudada. O resultado evidencia a importância da avaliação experimental das propriedades do material, uma vez que a adequação de determinado agregado não pode ser estabelecida exclusivamente a partir de sua denominação comercial ou de sua dimensão nominal. É necessário verificar se suas propriedades físicas e mecânicas atendem aos requisitos específicos do material ou sistema construtivo no qual será empregado.
Outro aspecto relevante refere-se à interação entre granulometria e consumo de materiais. A redução da dimensão das partículas tende a aumentar a área superficial específica do agregado, podendo elevar a quantidade de pasta necessária para envolver os grãos e garantir determinada condição de trabalhabilidade. Em contrapartida, uma distribuição granulométrica adequadamente graduada pode proporcionar melhor preenchimento dos vazios e reduzir o volume de espaços intergranulares. Dessa forma, a eficiência de uma composição granular não depende simplesmente da utilização de partículas maiores ou menores, mas do equilíbrio entre diferentes frações, das características superficiais dos grãos e das propriedades requeridas para o material final.
Nesse sentido, a escolha entre brita 0, brita 1, brita 2 e brita 3 deve estar diretamente relacionada à finalidade de utilização, às características geométricas do elemento construtivo, às condições de execução e aos requisitos de desempenho estabelecidos em projeto. Agregados de menor dimensão podem apresentar vantagens em composições que demandem maior capacidade de acomodação das partículas e preenchimento de vazios, enquanto agregados de maior dimensão podem ser mais adequados a sistemas nos quais se busca uma estrutura granular composta predominantemente por partículas graúdas. Em todos os casos, entretanto, a seleção deve ser fundamentada em critérios técnicos e não exclusivamente em disponibilidade, custo ou denominação comercial.
É importante destacar, ainda, que as dimensões associadas às denominações comerciais das britas podem variar de acordo com a origem do material, o processo de beneficiamento e as especificações adotadas. Por essa razão, em estudos acadêmicos, projetos e procedimentos de controle tecnológico, recomenda-se que a classificação do agregado seja acompanhada da caracterização granulométrica efetivamente obtida por ensaio, conforme os procedimentos e requisitos estabelecidos pelas normas técnicas aplicáveis. Essa abordagem proporciona maior precisão na descrição do material e reduz a possibilidade de interpretações equivocadas decorrentes exclusivamente de nomenclaturas comerciais.
Dessa maneira, compreender as diferenças entre brita 0, brita 1, brita 2 e brita 3 significa compreender que a dimensão dos grãos constitui apenas uma das variáveis que determinam o comportamento e a aplicabilidade dos agregados. A granulometria influencia o empacotamento das partículas, a quantidade de vazios, a compactabilidade e a demanda de pasta, enquanto propriedades como resistência ao desgaste, forma, massa específica, absorção e resistência mecânica complementam a avaliação tecnológica do material. A análise integrada desses parâmetros permite estabelecer uma relação mais consistente entre as características do agregado e o desempenho esperado para sua aplicação.
Portanto, a seleção dos agregados deve ser realizada a partir de uma abordagem baseada no desempenho, considerando simultaneamente as características do material, as exigências do projeto e as condições de serviço. A caracterização tecnológica, nesse contexto, deixa de representar apenas uma etapa de controle de qualidade e passa a constituir uma ferramenta essencial para o desenvolvimento de soluções construtivas mais eficientes, duráveis e tecnicamente adequadas. Assim, a utilização racional de brita 0, 1, 2 ou 3 depende não apenas de sua dimensão nominal, mas da compreensão de como sua distribuição granulométrica e suas propriedades físicas e mecânicas interferem no comportamento global do sistema no qual o agregado será empregado.
Referências
ANDRADE, Daniel Guida et al. Análise da viabilidade de utilização de brita leve (EVA) em concretos de cimento Portland. 2017.
MARMITT, Hariane Machado. Caracterização de propriedades resilientes de três britas graduadas utilizadas em pavimentos no sul do Brasil. 2002.
MOHAMAD, Gihad et al. Métodos combinados para a avaliação da resistência de concretos. Matéria (Rio de Janeiro), v. 20, n. 1, p. 83-99, 2015.
PENICHE, Kim Farias et al. Caracterização técnica dos agregados brita 0, pó de pedra e areia para fins de uso em concreto asfáltico: estudo de caso: obras BRT metropolitano de Belém. 2023.






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