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Tijolos Cerâmicos Versus Blocos Concreto na Construção Civil

20 de out.
6 min de leitura

Atualizado: 22 de out.

Escrito por Rayane Oliveira Fernandes, bacharel em Ciência e Tecnologia e graduanda em Engenharia Civil pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM).


A alvenaria constitui um dos sistemas construtivos de maior relevância na construção civil, podendo desempenhar funções de vedação, compartimentação e, em sistemas específicos, função estrutural. Nesse contexto, os componentes cerâmicos e os blocos de concreto destacam-se pela ampla utilização no mercado brasileiro, apresentando diferenças quanto às propriedades físicas, mecânicas, térmicas, geométricas e às condições de execução. A NBR 15270-1:2023 estabelece requisitos dimensionais e propriedades físicas e mecânicas para blocos e tijolos cerâmicos empregados em alvenarias com ou sem função estrutural, enquanto a NBR 6136-1:2026 estabelece requisitos para blocos vazados de concreto destinados à execução de alvenarias com ou sem função estrutural. Dessa forma, a escolha entre os dois sistemas deve ultrapassar uma análise baseada exclusivamente no custo de aquisição, considerando o desempenho do conjunto bloco–argamassa–revestimento e sua compatibilidade com as exigências do projeto. Estudos sobre alvenaria estrutural demonstram, inclusive, que o comportamento mecânico do sistema resulta da interação entre os componentes que constituem a parede, não podendo ser analisado apenas a partir das propriedades isoladas da unidade de alvenaria (DUARTE JUNIOR et al., 2024). A comparação visual entre os blocos cerâmicos e os blocos de concreto permite identificar diferenças na composição, na coloração, na geometria e na configuração dos vazios internos desses materiais. Essas características estão associadas ao desempenho térmico, à resistência mecânica, à massa específica e às possibilidades de aplicação na construção civil, conforme apresentado na Figura 1.


Figura 1 – Comparação visual entre bloco cerâmico e bloco de concreto.

Fonte: Master House Soluções (2024). 


Os componentes cerâmicos são produzidos predominantemente a partir de matérias-primas argilosas submetidas às etapas de preparação, conformação, secagem e queima, processo que confere ao produto suas características físicas e mecânicas. No Brasil, os blocos cerâmicos apresentam ampla aplicação, principalmente em sistemas de vedação, devido à disponibilidade comercial, relativa leveza e facilidade de execução. A geometria dos blocos exerce influência significativa sobre o comportamento da alvenaria, especialmente quando empregados em sistemas estruturais. Rizzatti et al. (2011) demonstraram experimentalmente que diferentes configurações geométricas de blocos cerâmicos podem produzir respostas distintas quando submetidas à compressão, evidenciando a importância da geometria dos septos e da área líquida no desempenho mecânico do conjunto. Além disso, a presença de vazios internos contribui para a redução da massa das unidades e pode favorecer determinadas características de desempenho térmico. Entretanto, a menor massa não significa necessariamente superioridade em todos os critérios de desempenho, uma vez que fatores como espessura da parede, revestimentos, orientação solar, composição da argamassa e condições climáticas interferem. A estrutura interna dos blocos cerâmicos é caracterizada pela presença de furos e septos, cuja configuração geométrica influencia propriedades como isolamento térmico, massa específica, resistência mecânica e desempenho do componente quando empregado em alvenarias. Os furos podem reduzir a massa do bloco e contribuir para a resistência à transferência de calor, enquanto os septos correspondem às paredes internas que delimitam essas cavidades. Esses elementos podem ser observados na Figura 2.


Figura 2 – Estrutura interna de um bloco cerâmico, destacando furos e septos.

Fonte: Silva, Araújo e Lima (2021).


Os blocos de concreto são produzidos a partir da combinação de cimento, agregados e água, sendo submetidos à moldagem e ao processo de cura. Em comparação aos componentes cerâmicos, apresentam características distintas de massa específica, resistência mecânica, absorção de água e estabilidade dimensional, aspectos que devem ser considerados na especificação do sistema. A normalização brasileira estabelece requisitos específicos para sua utilização, inclusive diferenciando aplicações estruturais e não estruturais conforme as características do produto. Pesquisas experimentais indicam que blocos de concreto podem apresentar desempenho mecânico superior em determinadas configurações de alvenaria estrutural, embora essa superioridade não possa ser generalizada para todos os produtos e condições de utilização. Estudos comparativos envolvendo blocos cerâmicos e de concreto demonstram que a resistência da parede depende de uma combinação de fatores, incluindo propriedades das unidades, características da argamassa, geometria dos componentes, presença de revestimentos e condições de carregamento. Assim, a avaliação do desempenho deve considerar o comportamento do sistema construtivo e não somente a resistência nominal informada para cada unidade.

Em termos comparativos, os blocos cerâmicos e os blocos de concreto apresentam características distintas que devem ser consideradas na definição do sistema construtivo. Os blocos cerâmicos são produzidos predominantemente a partir de argila e, de modo geral, apresentam menor massa específica, o que contribui para a redução das cargas permanentes da edificação. Também podem apresentar desempenho térmico favorável em determinadas configurações, além de ampla disponibilidade no mercado e facilidade de manuseio e execução. Por outro lado, os blocos de concreto são constituídos principalmente por cimento, agregados e água e, geralmente, apresentam maior massa específica e elevada resistência mecânica. Sua maior regularidade dimensional pode favorecer a produtividade e a racionalização da execução, especialmente quando empregados em sistemas construtivos modulados. Tanto os componentes cerâmicos quanto os blocos de concreto podem ser utilizados em sistemas de vedação ou em alvenaria estrutural, desde que atendam aos requisitos técnicos e normativos correspondentes.  Quanto ao desempenho térmico, os blocos cerâmicos podem apresentar vantagens em determinadas condições, enquanto o comportamento dos blocos de concreto depende de sua composição, geometria e configuração da parede. Em relação à produtividade, ambos os sistemas apresentam potencial para execução racionalizada, sendo que as dimensões, a precisão geométrica dos componentes, o método de assentamento e a qualificação da mão de obra influenciam diretamente o desempenho da execução. Portanto, a comparação entre os materiais deve considerar conjuntamente resistência, massa, desempenho termoacústico, produtividade, consumo de argamassa, perdas, necessidade de revestimentos, disponibilidade e custos, não sendo tecnicamente adequado estabelecer uma superioridade absoluta de um material sobre o outro.

Do ponto de vista do desempenho térmico, a análise comparativa entre blocos cerâmicos e de concreto deve considerar o sistema construtivo em sua totalidade. O comportamento térmico de uma parede depende não apenas das propriedades dos blocos, mas também das juntas de argamassa, dos revestimentos, da espessura da vedação, da orientação solar da edificação e das condições climáticas locais. Estudos experimentais comparativos demonstram que a utilização de diferentes materiais de alvenaria pode influenciar as temperaturas internas dos ambientes, embora o desempenho térmico também esteja condicionado às características do projeto arquitetônico e aos demais componentes construtivos. Nesse contexto, a ABNT NBR 15575-4 estabelece requisitos de desempenho para sistemas de vedações verticais internas e externas, incluindo critérios relacionados ao desempenho térmico e acústico. Dessa forma, a seleção do tipo de bloco deve considerar as exigências de desempenho da edificação, as características do ambiente e as condições de uso, evitando decisões fundamentadas exclusivamente em propriedades isoladas ou em concepções generalizadas sobre o comportamento térmico dos materiais. A comparação do desempenho térmico dos blocos cerâmicos e de concreto permite analisar as diferenças entre esses materiais quanto à capacidade de reduzir a transferência de calor através das paredes. Esse desempenho depende de fatores como condutividade térmica, espessura do bloco, geometria dos vazios, massa específica e características dos revestimentos utilizados. De modo geral, os blocos cerâmicos com furos podem apresentar condições favoráveis ao isolamento térmico, enquanto o desempenho dos blocos de concreto varia conforme sua composição e configuração. A síntese comparativa dessas características é apresentada na Figura 3.


FIGURA 3 – Tabela comparativo de desempenho térmico dos blocos cerâmico e de concreto. 

Fonte: Elaborado pelo próprio autor (2026).


Sob o enfoque da racionalização construtiva, da sustentabilidade e da viabilidade econômica, a análise comparativa entre blocos cerâmicos e de concreto deve abranger fatores que vão além do custo unitário dos materiais. Nesse contexto, a coordenação modular desempenha papel fundamental na otimização dos processos construtivos, pois contribui para a redução de perdas, o aumento da produtividade e a compatibilização dimensional entre os componentes da edificação. A ausência de planejamento dimensional adequado pode ocasionar desperdícios de materiais, retrabalho e diminuição da eficiência durante a execução das alvenarias. Além disso, a gestão de resíduos constitui um aspecto relevante para a sustentabilidade dos sistemas construtivos, destacando-se a possibilidade de incorporar resíduos provenientes da fabricação de componentes cerâmicos à produção de blocos de concreto, desde que sejam atendidos os requisitos técnicos aplicáveis. Dessa maneira, a escolha entre blocos cerâmicos e de concreto deve fundamentar-se em uma análise integrada de critérios como resistência mecânica, desempenho térmico e acústico, produtividade, geração de resíduos, consumo de argamassa e revestimentos, disponibilidade regional, custos diretos e indiretos e impactos ambientais. Portanto, não existe um sistema construtivo universalmente superior, uma vez que a adequação de cada alternativa depende das características do empreendimento, do atendimento às normas técnicas vigentes e dos requisitos de segurança, durabilidade, desempenho e eficiência estabelecidos em projeto.


REFERÊNCIAS

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 15270-1: componentes cerâmicos — blocos e tijolos para alvenaria: parte 1: requisitos. Rio de Janeiro: ABNT, 2023.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 6136-1: blocos vazados de concreto para alvenaria: parte 1: requisitos. Rio de Janeiro: ABNT, 2026.

ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. ABNT NBR 15575-4: edificações habitacionais — desempenho: parte 4: requisitos para os sistemas de vedações verticais internas e externas — SVVIE. Rio de Janeiro: ABNT, 2021.

NAKAO, Fernando; DUARTE, Paulo Cesar; ORTENZI, Altibano. Comparação entre as propriedades mecânicas de blocos de concreto e seus testemunhos. Matéria (Rio de Janeiro), v. 29, n. 4, p. e20240457, 2024. 

SANTOS, Joaquim César Pizzutti dos et al. Thermal behavior of masonry building fence to brazilian climate zone 2. Matéria (Rio de Janeiro), v. 20, p. 1030-1047, 2015. 

RIZZATTI, Eduardo et al. Tipologia de blocos cerâmicos estruturais: influência da geometria dos blocos no comportamento mecânico da alvenaria. Matéria (Rio de Janeiro), v. 16, n. 2, p. 730-746, 2011.

SOUZA, Micael Felipe de; SORIANO, Julio; PATINO, Marco Tulio Ospina. Compressive strength and economic viability of concrete blocks with ceramic brick residues. Matéria (Rio de Janeiro), v. 23, p. e12203, 2018.



 
 
 

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