PATOLOGIA NA CONSTRUÇÃO CIVIL
Escrito por Rayane Oliveira Fernandes bacharel em Ciência e Tecnologia pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM).
A construção civil exerce papel essencial no desenvolvimento econômico e social, sendo responsável pela implantação de infraestrutura e pela execução de edificações destinadas a diferentes finalidades. Para garantir o desempenho esperado, essas construções devem atender aos requisitos de segurança, durabilidade, funcionalidade e conforto ao longo de sua vida útil. Entretanto, é comum o surgimento de anomalias que comprometem a qualidade e a estabilidade das edificações, elevando os custos de manutenção e recuperação. Nesse contexto, a Patologia das Construções constitui o ramo da Engenharia Civil dedicado ao estudo dessas manifestações, investigando suas causas, mecanismos de ocorrência, sintomas e consequências. Segundo Oliveira (2013), essa área possibilita identificar falhas originadas desde a fase de projeto até a utilização da edificação, subsidiando diagnósticos precisos e a adoção de intervenções técnicas capazes de aumentar a vida útil, a segurança e o desempenho das construções.
Nas últimas décadas, o crescimento acelerado da construção civil intensificou a ocorrência de manifestações patológicas em edificações. A busca pela redução de custos e prazos de execução, aliada ao uso inadequado de materiais, à deficiência da mão de obra e às falhas no controle tecnológico, contribuíram para o surgimento dessas anomalias. Embora muitas patologias sejam identificadas apenas durante a fase de utilização, sua origem está, na maioria das vezes, relacionada a erros de projeto, falhas de execução e à ausência de manutenção preventiva, comprometendo o desempenho, a durabilidade e a segurança das construções. A Figura 1 ilustra as principais causas de origem das manifestações patológicas nas edificações, evidenciando que essas anomalias podem estar associadas a diferentes etapas do processo construtivo.
Figura 1 - Principais causas de origem das manifestações patológicas nas edificações.

Fonte: Adaptado de Oliveira (2013).
Segundo Oliveira (2013), as manifestações patológicas podem ter origem nas fases de concepção, execução e utilização da edificação. Na fase de projeto, destacam-se erros de dimensionamento, incompatibilização entre projetos e especificações inadequadas de materiais. Durante a execução, as patologias estão relacionadas à deficiência no controle tecnológico, falhas construtivas, impermeabilização inadequada e baixa qualificação da mão de obra. Já na fase de utilização, a ausência de manutenção preventiva, reformas sem acompanhamento técnico, sobrecargas e infiltrações aceleram a deterioração dos materiais, favorecendo a evolução de manifestações inicialmente superficiais para problemas estruturais de maior gravidade.
Entre as principais manifestações patológicas observadas nas edificações destacam-se as fissuras, trincas, rachaduras, infiltrações, eflorescências, corrosão das armaduras, desplacamento do concreto, destacamento de revestimentos cerâmicos, umidade ascendente por capilaridade, carbonatação, ataques químicos e recalques diferenciais das fundações. Essas manifestações apresentam mecanismos distintos de ocorrência, porém frequentemente estão inter-relacionadas, de modo que uma patologia pode desencadear diversas outras ao longo da vida útil da estrutura. Conforme ilustrado na Figura 2, a corrosão da armadura em pilares de concreto armado e parede externa da residência com infiltração representam manifestações patológicas frequentes nas edificações. Ambas comprometem o desempenho, a durabilidade e, quando não tratadas adequadamente, podem evoluir para danos estruturais de maior gravidade.
Figura 2 – Exemplos das principais manifestações patológicas encontradas em edificações.

Fonte: Heerdt, Pio e Bleichvel (2016).
As fissuras e infiltrações estão entre as manifestações patológicas mais frequentes na construção civil. As fissuras podem ser causadas por retração do concreto, movimentações térmicas, recalques diferenciais, sobrecargas e corrosão das armaduras, sendo classificadas em ativas ou passivas conforme sua evolução. Já as infiltrações decorrem, principalmente, de falhas na impermeabilização, coberturas, instalações hidráulicas e sistemas de drenagem, favorecendo a degradação dos materiais, o aparecimento de eflorescências, fungos e processos corrosivos, comprometendo a durabilidade e o desempenho das edificações.
A corrosão das armaduras representa uma das patologias estruturais mais graves nas estruturas de concreto armado. Esse fenômeno ocorre quando agentes agressivos, como dióxido de carbono, cloretos e umidade, atingem as armaduras metálicas, rompendo a camada passivadora proporcionada pela alcalinidade do concreto. O aumento do volume dos produtos de corrosão provoca tensões internas capazes de gerar fissuração, destacamento do cobrimento e redução significativa da capacidade resistente da estrutura. Quando não tratada adequadamente, essa manifestação pode comprometer a estabilidade da edificação e colocar em risco a segurança dos usuários. Na engenharia diagnóstica, a identificação das manifestações patológicas é realizada por meio de uma investigação sistemática, iniciando-se com inspeções visuais e análise do histórico da edificação. Também são avaliados os projetos executivos e as condições de exposição da estrutura. Quando necessário, utilizam-se ensaios destrutivos e não destrutivos para complementar o diagnóstico. Como ilustrado na Figura 3, essas etapas permitem identificar as causas das patologias e definir as intervenções mais adequadas para a recuperação da edificação.
Figura 3 – Etapas do processo de diagnóstico das manifestações patológicas.

Fonte: OLIVEIRA (2013)
Após o diagnóstico, elabora-se o prognóstico da estrutura, estimando sua evolução caso nenhuma intervenção seja realizada. Em seguida, define-se a terapia adequada, que poderá envolver desde simples procedimentos de manutenção corretiva até reforços estruturais complexos, substituição de elementos deteriorados ou recuperação completa dos sistemas construtivos afetados. A escolha da técnica depende da gravidade da manifestação, das condições ambientais, dos custos envolvidos e da vida útil residual pretendida para a estrutura.
Atualmente, a Engenharia Civil prioriza ações preventivas para reduzir a ocorrência de manifestações patológicas e ampliar a vida útil das edificações. Medidas como inspeções periódicas, manutenção preventiva, controle tecnológico dos materiais e cumprimento das normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas são essenciais para garantir a qualidade das construções. Além disso, o planejamento adequado e a capacitação dos profissionais contribuem para minimizar falhas construtivas. Conforme apresentado na Figura 4, a corrosão das armaduras provoca a expansão dos produtos de corrosão, resultando em fissuração e desplacamento do concreto de cobrimento, comprometendo a durabilidade e a segurança estrutural.
Figura 4 – Corrosão das armaduras e desplacamento do concreto de cobrimento.

Fonte: Heerdt, Pio e Bleichvel (2016).
Em síntese, a Patologia das Construções configura-se atualmente como uma das áreas mais importantes da Engenharia Civil, pois fornece subsídios técnicos para compreender os mecanismos de deterioração das edificações, identificar suas causas e estabelecer procedimentos eficazes de prevenção e recuperação. O domínio desses conhecimentos permite não apenas solucionar problemas existentes, mas também aperfeiçoar continuamente os processos construtivos, contribuindo para a elevação da qualidade, da durabilidade e da sustentabilidade das edificações contemporâneas.
Referências
DINIZ, L.; SOUZA, Orientador Bruna. Conceito e Manutenção de Patologias na Construção Civil. In: PGSSCOGNA Forum Engenharia Civil. 2023.
FERREIRA, Jackeline Batista et al. Manifestações patológicas na construção civil. Caderno de Graduação-Ciências Exatas e Tecnológicas-UNIT-SERGIPE, v. 5, n. 1, p. 71-71, 2018.
FRANÇA, Alessandra AV et al. Patologia das construções: uma especialidade na engenharia civil. Téchne, São Paulo, v. 19, n. 174, p. 72-77, 2011.
HEERDT, Giordano Bruno; PIO, Vanessa Mafra; BLEICHVEL, Natália Cristina Thiem. Principais patologias na construção civil. Trabalho de Graduação, Bacharelado em Engenharia Civil-Faculdade Metropolitana de Rio do Sul–UNIASSELVI/FAMESUL, Rio do Sul, 2016.
OLIVEIRA, Daniel Ferreira. Levantamento de causas de patologias na construção civil. 2013.






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