top of page

Reúso de água na obra

24 de ago.
6 min de leitura

Escrito por Rayane Oliveira Fernandes, bacharel em Ciência e Tecnologia e graduanda em Engenharia Civil pela Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM).


O reúso de água na construção civil constitui uma importante estratégia para a conservação dos recursos hídricos, uma vez que contribui para a redução do consumo de água potável, dos custos operacionais e dos impactos ambientais associados à execução dos empreendimentos. Durante a fase de construção, a água é empregada em diversas atividades, incluindo a limpeza do canteiro, o controle de poeira, a lavagem de equipamentos e ferramentas, a execução de determinados serviços e o atendimento às demandas das instalações provisórias e dos trabalhadores. Nesse cenário, a utilização de fontes alternativas de abastecimento possibilita reservar a água potável para atividades que efetivamente requerem padrões de potabilidade, enquanto águas de qualidade compatível podem ser destinadas a usos não potáveis. Além disso, a adoção de práticas simples de reúso pode representar uma contribuição significativa para a preservação dos recursos naturais e para a redução dos custos relacionados ao consumo de água durante a obra. Dessa forma, o reúso deve ser integrado a uma estratégia abrangente de gestão hídrica, articulada a medidas de redução de perdas, prevenção do desperdício e uso racional da água, promovendo maior eficiência ambiental e econômica no processo construtivo.

Entre as principais fontes alternativas de água que podem ser utilizadas em canteiros de obras destacam-se as águas pluviais, as águas cinzas e as águas provenientes de determinadas atividades de lavagem, desde que sejam submetidas a tratamento adequado e apresentem características compatíveis com o uso previsto. A captação de águas pluviais, por exemplo, pode ser realizada a partir das coberturas das edificações e conduzida por meio de calhas e tubulações até reservatórios de armazenamento, podendo incluir etapas de tratamento conforme a finalidade de uso. Da mesma forma, águas provenientes de lavatórios, chuveiros, pias, tanques e processos específicos de lavagem podem ser coletadas de maneira segregada, tratadas e posteriormente destinadas a atividades que não demandam água potável.

Nesse contexto, destacam-se como alternativas a implantação de sistemas de captação e armazenamento de águas pluviais, o aproveitamento de águas provenientes de processos de lavagem, quando devidamente tratadas e adequadas à finalidade pretendida, e a implementação de sistemas internos de reúso planejados de acordo com as características e necessidades do canteiro. Para garantir a segurança operacional, é fundamental que as redes destinadas à água potável e à água de reúso sejam mantidas separadas, reduzindo o risco de contaminação cruzada. Assim, a concepção de um sistema de reúso deve considerar de forma integrada a disponibilidade de água e a demanda existente no canteiro, contemplando aspectos como pontos de captação e utilização, vazões, capacidade de armazenamento, processos de tratamento, sistemas de distribuição e requisitos de qualidade da água. Essa abordagem permite dimensionar o sistema de forma mais eficiente e garantir que a água de reúso seja empregada de maneira segura, racional e compatível com as atividades previstas. As principais fontes de água passíveis de reúso no canteiro de obras incluem a água da chuva, a água de drenagem e a água proveniente da lavagem de equipamentos e ferramentas, conforme apresentado na Figura 1.


Figura 1 – Principais fontes de água passíveis de reúso no canteiro de obras.

Fonte: Adaptada pelo autora.


As possibilidades de utilização da água de reúso em canteiros de obras são variadas, sobretudo em atividades que não demandam água potável. Entre as principais aplicações, destacam-se a limpeza das áreas do canteiro, a umidificação de vias para o controle da emissão de poeira, a lavagem de equipamentos e ferramentas e, quando houver compatibilidade técnica e atendimento aos requisitos de qualidade, sua utilização na cura do concreto.

A experiência apresentada evidencia a viabilidade dessas práticas por meio da captação e do armazenamento de águas pluviais em cisternas, com tratamento adequado antes de sua utilização. Também se destaca o aproveitamento da água proveniente de aparelhos de ar-condicionado para atividades de limpeza e umidificação, além do emprego de água de reúso na lavagem das rodas dos veículos e das bicas dos caminhões betoneiras. Complementarmente, a água da chuva pode ser utilizada em caminhões-pipa para a aspersão do solo, contribuindo para o controle da poeira e para a melhoria das condições ambientais e operacionais do canteiro. Essas aplicações demonstram que diferentes fontes podem ser integradas à gestão hídrica do canteiro, desde que a qualidade da água seja compatível com a atividade a ser realizada. A Figura 2 apresenta a utilização de água captada da chuva na aspersão do solo por meio de caminhão-pipa, como medida de controle da emissão de poeira e a torneira com água de reúso para o lava rodas de veículos e lava bicas de caminhões betoneiras.


Figura 2 – Principais aplicações da água de reúso no canteiro de obras.

Fonte:  Zeule e Serra (2014).


Do ponto de vista técnico, a implantação de um sistema de reúso exige que o tratamento seja definido de acordo com a qualidade da água de origem e com a finalidade de utilização. Para águas cinzas, podem ser empregados processos físicos, biológicos e de desinfecção, enquanto sistemas mais exigentes podem demandar etapas complementares de tratamento e controle. O sistema deve ser dimensionado considerando a oferta e a demanda de água, os pontos de coleta e utilização, o volume de armazenamento, as redes de transporte e distribuição e os parâmetros de qualidade necessários. Nesse sentido, o reúso não deve ser compreendido simplesmente como a instalação de um reservatório, mas como um sistema hidráulico-sanitário integrado. Além disso, a utilização da água reutilizada deve respeitar critérios de segurança, uma vez que nem toda água pode ser destinada a qualquer atividade. Mais ressalta a necessidade de avaliar a qualidade da água e atender às normas técnicas e às exigências legais correspondentes a cada aplicação. O sistema de captação de água de chuva por meio de calhas de PVC nas instalações provisórias do canteiro de obras e o esquema de reúso de águas cinzas são apresentados na Figura 3.


Figura 3 – Representação esquemática de um sistema de reúso de água no canteiro de obras.

Fonte: Zeule e Serra (2014).                                  Fonte: HAFNER (2007)


Além dos aspectos técnicos e sanitários, a implantação de sistemas de reúso de água em canteiros de obras deve considerar sua viabilidade econômica e sua articulação com outras medidas voltadas à conservação dos recursos hídricos. Nesse sentido, ações como a conscientização dos usuários, a identificação e correção de vazamentos, a substituição de equipamentos que apresentam baixo desempenho e o aproveitamento de águas pluviais devem ser implementadas de forma integrada às estratégias de reúso. Estudos de caso evidenciam que a adoção de práticas de gestão hídrica pode apresentar diferentes níveis de eficiência entre os empreendimentos, o que reforça a necessidade de planejamento, monitoramento e avaliação contínua das ações implementadas.

Entre os principais benefícios proporcionados pelo reúso destacam-se a redução do consumo de água potável, a diminuição dos custos associados ao abastecimento, a redução dos impactos ambientais e o aumento da eficiência na utilização dos recursos hídricos. Para que esses benefícios sejam efetivamente alcançados, o sistema deve ser planejado a partir de um diagnóstico das características do canteiro, considerando as fontes de água disponíveis, os volumes gerados, as demandas existentes, os usos compatíveis, os processos de tratamento necessários, os custos de implantação e manutenção e os requisitos de segurança e qualidade da água. Dessa maneira, a sustentabilidade no canteiro de obras está diretamente relacionada à capacidade de planejar e integrar diferentes práticas de gestão dos recursos naturais. Medidas relativamente simples, quando adequadamente planejadas e acompanhadas, podem gerar resultados positivos não apenas para a conservação ambiental, mas também para a eficiência operacional, a redução de custos e a imagem institucional da empresa perante a sociedade e o mercado da construção civil.

Portanto, o reúso de água na construção civil deve ser entendido como uma estratégia integrada de gestão dos recursos hídricos, e não apenas como uma tecnologia isolada. A captação de águas pluviais, o aproveitamento de águas cinzas e de águas provenientes de lavagem, o tratamento adequado, o armazenamento, a distribuição por redes independentes, o monitoramento da qualidade, a manutenção dos sistemas e a conscientização dos trabalhadores constituem elementos complementares de uma gestão hídrica eficiente. O objetivo não deve ser simplesmente reutilizar o maior volume possível de água, mas utilizar cada fonte de maneira tecnicamente adequada, direcionando-a para atividades compatíveis com sua qualidade e reduzindo a utilização desnecessária de água potável. Dessa forma, o reúso contribui para a conservação dos recursos naturais, para a racionalização dos custos e para a construção de canteiros mais eficientes e ambientalmente responsáveis.


Referências

DE ARAÚJO, Cleane Cruz et al. Reuso de água no canteiro de obra: sustentabilidade, viabilidade e insumos. Acta Scientia, v. 2, n. 2, 2020. 

HAFNER, Ana Vreni. Conservação e reuso de água em edificações–experiências nacionais e internacionais. Rio de Janeiro, RJ, 2007. 

MURILLA, Bruna de Almeida; MORAES, Guilherme Augusto de; BERNARDO, Maíra Donnabella. Reuso de água em um canteiro de obras. 2021. 

ZEULE, Ludimilla de O.; SERRA, Sheyla. Análise das práticas de sustentabilidade no uso racional da água em canteiros de obras. XV ENCONTRO NACIONAL DE TECNOLOGIA DO AMBIENTE CONSTRUÍDO–ENTAC, Maceió, 2014. 

 
 
 

Comentários


Todos os direitos reservados ao Projeto de Extensão Construção +

bottom of page